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O meu cão é medroso

O meu cão é medroso

A SÍNDROME  DE PRIVAÇÃO SENSORIAL (kennel syndrome)

A síndrome de privação sensorial é uma patologia de desenvolvimento. Os animais que padecem desta patologia foram criados em meios hipo estimulantes, não conseguindo posteriormente gerir os estímulos do ambiente em que o obrigamos a viver.

Nos animais distinguimos 2 tipos de fobias:

1. As fobias pós-traumáticas, que aparecem depois de uma exposição a um estímulo intenso, em meio fechado.

2. As fobias ontogénicas, que resultam das condições de desenvolvimento em meios hipo estimulantes. Se estas condições de desenvolvimento causarem várias fobias ontogénicas no animal, podemos dizer que ele padece da Síndrome de privação sensorial. Este acontece porque o animal desenvolve fobias a estímulos aos quais  não foi sujeito durante o período de desenvolvimento (período sensível até à 16ª semana).

O animal pode apresentar fobias simples (Síndrome de privação estado 1) que são perfeitamente identificadas pelo dono (ex.: foguetes, carros, sacos plásticos, crianças etc.), manifestando-se geralmente por tremores, midríase, ptialismo (salivação), respiração ofegante, micções e/ou defecações emocionais. Confrontado com esses estímulos, o animal pode tentar fugir, inibir-se completamente ou agredir se estiver em situação fechada (incapacidade de fugir).

O animal pode apresentar fobia generalizada (síndrome de privação estado 2 ou ansiedade de privação).É neste caso, um cão que tem medo de tudo e que apresenta, predominantemente, distúrbios do tracto digestivo (vómitos, diarreia) e por vezes crises convulsivas. A hipervigilância e o processo de antecipação são constantes neste caso.

Síndrome de privação estado 3: animal com inibição comportamental total (depressão crónica). 

As queixas mais frequentes dos donos de cães com síndrome de privação sensorial:

- Dificuldade em sair à rua com o animal, principalmente em meios urbanos. O animal recusa-se a andar ou tenta fugir;

- Ataques de pânico;

- Problemas de asseio: por inibição do comportamento de eliminação em meio ansiogénico ou por micções e/ou defecações emocionais;

-  Agressividade para com estranhos (fobia social) em situações fechadas (ex.: animal com trela posta, animal debaixo de uma cadeira…;

- Actividades de substituição: lambeduras acrais, bulimia…

- Comem preferencialmente à noite quando todos estão deitados: Ocorre mais em cachorros recém chegados. Como o cão que padece desta patologia dificilmente consegue adaptar-se a meios novos, os comportamentos mais naturais, mais simples, como por exemplo, comer, não podem ser efectuados na presença de pessoas que lhe são estranha.

NOTA: Os donos podem agravar a situação, reforçando positivamente estes comportamentos, “reconfortando” o animal e evitando sair com ele.

Etiologia:

O potencial genético é moldado pelo meio ambiente e pelas aprendizagens precoces. Depois do nascimento, as células nervosas (neurónios) multiplicam-se e criam milhares de conexões (sinapses) entre elas: SINAPTOGÉNESE (ou redundância sináptica). Daí resulta uma rede sináptica muito densa mas imatura e não funcional. A intervenção do meio induz a maturação dessas sinapses e a persistência das conexões inter neuronais: MATURAÇÃO SINÁPTICA (ou selecção sináptica). Consequentemente as sinapses imaturas,  que não foram estimuladas, vão regredir, dando então origem a uma rede neural organizada e eficaz. A regressão destas sinapses é inversamente proporcional aos estímulos encontrados durante o período de desenvolvimento do animal.

A activação das sinapses ocorre quase exclusivamente num período limitado de tempo: período sensível ou crítico. Este período de desenvolvimento vai determinar para cada indivíduo uma sensibilidade aos estímulos e particularmente um limiar máximo de sensibilidade (LIMIAR DE HOMEOSTASIA SENSORIAL). Quando um estímulo excede esse limiar, o animal é incapaz de integrá-lo correctamente e manifesta então manifestações de medo.

A síndrome de privação sensorial caracteriza-se por um deficit na gestão das informações sensoriais num indivíduo que foi criado num meio hipo estimulante.

Posteriormente, se lhe proporcionarmos as condições adequadas (apresentação dos estímulos fobogénicos frequentemente mas em baixa intensidade), o animal pode habituar-se a certos estímulos. Também pode sensibilizar-se cada vez mais aos estímulos, antecipando até as situações (ex.: cão que tem medo de andar de carro e que começa a apresentar sinais de medo quando o dono pega nas chaves).

Diagnóstico:

Síndrome de privação sensorial estado 1:

- Reacções de medo manifestadas pelo animal perante estímulos que o dono consegue identificar perfeitamente.

- Os ataques de pânico ocorrem pontualmente.

Síndrome de privação sensorial estado 2: (ansiedade de privação)

– Amplificação das reacções. O animal antecipa os estímulos, o que favorece uma generalização das fobias.

- Incapacidade parcial de adaptação ao meio.

- Actividades de substituição

-  Hiper apego: o animal vai ligar-se fortemente a uma ou várias pessoas permitindo-lhe estabilizar sua ansiedade e gerir parcialmente o meio ambiente.

– Destruições, vocalizações e/ou eliminações inapropriadas dentro de casa.

Síndrome de privação sensorial estado 3: (depressão crónica)

- Inibição comportamental total (ausência de comportamentos lúdicos…)

- Alterações qualitativas e quantitativas do sono.

- Incapacidade total de adaptação ao meio.

- Actividades de substituição.

– Enuresia / encopresia: o animal urina e defeca no sítio onde dorme.

Evolução:

Síndrome de privação sensorial estado 1:

Depende principalmente das condições de vida do animal e da intervenção dos donos. Pode evoluir para:

- Ansiedade intermitente com agressões (58%)

- Cura (16%)

- Síndrome de privação estado 2 (14%)

- Hiper agressividade (10%)

– Estabilidade (2%)

 Síndrome de privação sensorial estado 2:

- Relativamente estável graças ao hiper apego (74%).

Nota: As estratégias encontradas pelos donos para evitar as situações de risco não melhoram o estado de ansiedade do animal.

– Síndrome de privação sensorial estado 3 (26%)

Prognóstico:

O animal que padece da síndrome de privação sensorial no estado 2 e 3 deve ser obrigatoriamente medicado!

- Depende do estado da patologia.

- Depende do tamanho do animal.

- Da atitude do dono.

- Da idade do animal no inicio do tratamento. A detecção precoce é fundamental para o sucesso terapêutico.

- Comorbidade com outras patologias comportamentais.

– As recaídas são frequentes e a terapia longa o que pode desmotivar os donos. 

Prevenção:

- Proporcionar-lhe condições de desenvolvimento correctas no período sensível (até 16ª semana)

NOTA: Se a qualidade do meio de desenvolvimento constitui uma condição necessária à construção de um indivíduo, esta por vezes, não é suficiente. As condições precoces são importantes mas as condições de vida posteriores podem alterar um desenvolvimento harmonioso.