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Síndrome de cushing ou hiperadrenocorticismo

Síndrome de cushing ou hiperadrenocorticismo

Embora o síndrome de Cushing seja uma doença severa, as alterações que provoca podem ser pouco evidentes nos estádios iniciais.
Nem sempre é fácil para os donos reconhecer os sinais da doença, pois assumem que tais alterações se devem ao envelhecimento natural do animal. O diagnóstico precoce é fundamental, uma vez que com o tratamento adequado é possível garantir uma boa qualidade de vida ao seu animal de estimação.

O que é o Síndrome de Cushing?

Esta doença é causada por exposição prolongada do organismo a níveis elevados de uma hormona – o cortisol. O nome Cushing surgiu em homenagem a Harvey Cushing, o neurocirurgião que identificou e se dedicou ao estudo da doença em humanos. Esta doença também pode ser designada por “hiperadrenocorticismo” ou por “hipercortisolemia”.
Tal como referido, o síndrome de Cushing é causado por excesso da hormona esteróide, cortisol. Num cão normal o cortisol é produzido nas glândulas supra-renais (localizadas cranialmente aos rins). O cortisol tem diversos efeitos nos tecidos do corpo.

Entre outras tarefas vitais o cortisol ajuda a:
- Manter a pressão sanguínea;
- Abrandar a resposta inflamatória do sistema de defesa;
- Equilibrar os efeitos da insulina, promovendo a quebra de açúcares para obtenção de energia;
- Regular o metabolismo das proteínas, hidratos de carbono e gorduras.


Devido aos seus efeitos vitais para a saúde, os níveis de cortisol produzidos pelas supra-renais são rigorosamente controlados. A produção de cortisol é regulada por outras hormonas produzidas no cérebro (nomeadamente pela hipófise). Estas hormonas estimulam as glândulas supra-renais: ao receberem sinalização da hipófise, as supra-renais respondem aumentando a produção de cortisol. Nos animais saudáveis o cortisol é produzido sobretudo em condições de stress – no síndrome de Cushing os níveis desta hormona estão permanentemente elevados.


O que causa o síndrome de Cushing?

Praticamente todos os casos de Cushing são causados por um tumor da hipófise (85- 90%). Embora este seja, literalmente, um tumor cerebral, este é geralmente de pequenas dimensões, benigno e não causa aumento de pressão no cérebro. Alguns casos de Cushing são causados por tumor das glândulas supra-renais (10-15%).


As duas formas naturais de síndrome de Cushing são:

Síndrome de Cushing hipófiso-dependente: um tumor na hipófise causa excesso de produção da hormona ACTH (hormona adrenocorticotrófica) que resulta num aumento de ambas as supra-renais.
Síndrome de Cushing não hipófiso-dependente: Um tumor da supra-renal provoca um aumento de uma das glândulas supra-renais relativamente à outra, o que acarreta maior produção de cortisol.

Por vezes a causa de síndrome de Cushing é de origem iatrogénica, isto é, fica a dever-se a terapêuticas prolongadas com corticoesteróides, que são frequentemente utilizados na resolução de doenças alérgicas que afectam a pele.


Como saber se o seu animal sofre de síndrome de Cushing?

Os sinais desta doença são extremamente variáveis e podem ser subtis nos estádios iniciais. Na maior parte das vezes não é possível distinguir qual das formas está presente pelos sinais clínicos. Este síndrome afeta animais idosos (com mais de sete anos). Uma vez que as alterações vão aparecendo gradualmente torna-se mais fácil reconhecê-las se a convivência com o animal não for diária. Frequentemente é o veterinário quem aponta as principais alterações nas consultas de rotina. Tal como se disse no início, muitos donos confundem os sinais da doença com as alterações próprias do envelhecimento do animal.


Sinais clínicos da doença:

As hormonas esteróides afetam praticamente todos os tecidos do organismo e os sinais da doença podem ser variados. O sinal mais evidente desta doença é o aumento da sede. Se o seu animal de estimação tem bebido mais água do que o habitual (ou se acorda à noite para urinar) é aconselhável levá-lo ao veterinário para fazer um check-up.
O aumento do apetite e o consequente aumento de peso são outros sinais comuns, embora os donos não relacionem tal facto com um quadro de doença!
O síndrome de Cushing também provoca alterações na pele e pêlo. Verifica-se perda de pêlo numa área bem definida (geralmente no flanco), sem que haja prurido. A pele torna-se mais fina e mais frágil, ficando mais propensa ao aparecimento de lesões. Podem aparecer estrias rosa-arroxeadas no abdómen. As cadelas podem ter atrasos no cio.
As hormonas esteróides causam atrofia e fraqueza muscular, tornando o animal menos tolerante ao exercício físico. O animal pode arfar com maior frequência o pode demonstrar problemas ao nível das articulações. Nesta doença a gordura é depositada preferencialmente no fígado, cujo aumento de tamanho favorece um abdómen descaído, o chamado abdómen pendular.
Os elevados níveis sanguíneos de cortisol deprimem o sistema de defesa e atrasam o processo de cicatrização; assim sendo, estes animais podem ter infecções recorrentes ou feridas que não se resolvem facilmente.
Na maioria dos casos o tumor hipofisário é de pequenas dimensões e não causa efeitos físicos. Contudo, numa pequena percentagem de animais o tumor cerebral é suficientemente grande para provocar sintomas nervosos, como por exemplo, depressão, cegueira ou convulsões.


De que modo o veterinário pode diagnosticar a doença?

O síndrome de Cushing pode ser muito de difícil de confirmar. O veterinário pode suspeitar da presença de doença no seu animal através das análises sanguíneas, mas são necessários testes mais específicos para confirmar o diagnóstico, nomeadamente a medição dos níveis de cortisol no sangue. Contudo, os níveis desta hormona variam de hora a hora num animal saudável, pelo que a medição exclusiva desta hormona não poderá servir para um diagnóstico definitivo. O veterinário vai basear o seu diagnóstico na colheita de amostras de sangue antes e depois da administração de hormonas que têm capacidade de afectar os níveis de cortisol produzido pelo animal. Estas amostras de sangue terão que ser manuseadas cuidadosamente e a maioria é enviada para laboratórios específicos que procedem à análise.
A ecografia abdominal permite avaliar o tamanho de cada uma das glândulas adrenais. Na presença de um tumor supra-renal uma das glândulas está aumentada de tamanho relativamente à outra. Se, por outro lado, a doença for causada por um tumor na hipófise ambas as glândulas supra-renais vão aparecer aumentadas ao exame ecográfico.
A radiografia também pode servir para evidenciar potenciais alterações provocadas pela doença.


Por que motivo é necessária a recolha de urina ao meu animal?

Existem diversas indicações que justificam a utilidade da análise de urina em cães com doença de Cushing.

- Quando os níveis da hormona cortisol são muito elevados no sangue, alguma parte pode passar para a urina e este valor pode ser medido. Se não existir cortisol na urina será pouco provável que o seu animal tenha doença de Cushing. Infelizmente, a presença de cortisol na urina não é garantia que o seu cão tenha a doença, uma vez que muitas outras doenças podem justificar o seu aparecimento.

- Se o seu cão tem doença de Cushing é provável que o seu sistema de defesa não esteja a funcionar como deveria. Nesse sentido o veterinário requer uma análise de urina para averiguar se o animal tem uma infecção urinária.

- Adicionalmente, os elevados níveis de cortisol no sangue podem causar diabetes mellitus e o veterinário requer uma urianálise para descartar esta possibilidade (ausência de açúcar no sangue).


Qual o tratamento a aplicar?

O tratamento médico tradicionalmente instituído e que ainda hoje continua a ser uma alternativa, passa pela administração de mitotano (Lysodren). O mitotano é tóxico para a zona produtora de cortisol na supra-renal. Ao destruir este tecido impede que sejam produzidas quantidades excessivas da hormona. O mitotano tem ainda a capacidade de destruir células tumorais da supra-renal. Relembre que na maioria dos cães com doença de Cushing, esta se deve a um tumor de pequenas dimensões na hipófise, o que leva a que este medicamento não actue na maioria dos casos. Inicialmente dá-se o medicamento uma vez por dia durante 7 a 10 dias. Isto causa uma rápida destruição da glândula supra-renal. Uma vez atingidos níveis baixos de cortisol, o mitotano passa a ser dado na dose de manutenção, uma vez por semana, de forma a destruir quaisquer novas células que se tenham desenvolvido nessa semana. Análises sanguíneas de rotina são feitas três a quatro vezes por ano, para avaliar a necessidade de alteração da terapêutica.

Actualmente o tratamento instituído no Hospital Veterinário do Porto passa pela administração de uma medicação relativamente recente – o trilostano (Vetoryl). Esta droga inibe a produção de cortisol pelas glândulas supra-renais e, contrariamente ao mitotano, não destrói os tecidos da glândula. É importante referir que o trilostano não vai diminuir o tumor (seja ele supra-renal ou hipofisário) que está subjacente à doença; o trilostano vai controlar os sinais clínicos decorrentes do excesso de cortisol no organismo, nas duas formas da doença (hipófiso ou não-hipófiso-dependente). Este medicamento vem na forma de comprimidos e é dado uma vez por dia (por vezes duas), sendo importante a sua toma regular de modo a não permitir que os níveis da hormona disparem. Tal como no caso do mitotano, são necessárias análises de rotina, três a quatro vezes por ano, para assegurar que o tratamento continua a ser eficaz e que não é necessário alterar as doses administradas.